Os chamados inibidores de bomba de prótons (IBP) estão entre as drogas mais prescritas mundialmente e são utilizadas principalmente para reduzir a acidez gástrica em pacientes com doença do refluxo gastroesofagiano (DRGE) e úlceras pépticas, usuários crônicos de aspirina e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), e na erradicação do Helicobacter pylori (HP).

O objetivo desse estudo coorte nacional sueco foi de avaliar como a terapia de manutenção com IBPs influencia o risco de desenvolvimento desse tipo de tumor. Os dados foram extraídos do registro sueco de drogas prescritas, que registra todas as medicações prescritas e dispensadas desse país. Além do uso de prolongado de IBPs, também foi avaliado, para fins de comparação, o uso crônico de antagonistas de receptor de histamina, que tem indicações semelhantes às dos IBPs.

A fim de evitar o viés de confusão por indicação, os dados foram avaliados separadamente de acordo com a indicação do uso dos IBPs em três categorias: indicações com risco esperado aumentado (DRGE), indicações com risco esperado neutro (doença ulcerosa péptica) e indicações com risco esperado reduzido (erradicação de HP e uso crônico de aspirina ou outro AINE) para câncer de esôfago.

No total, 796.492 indivíduos receberam terapia de manutenção com IBPs durante o período do estudo, sendo as principais indicações uso de aspirina (34.8%), uso de AINEs (30.4%) e DRGE (25.3%). O adenocarcinoma de esôfago foi diagnosticado em 649 pacientes. A razão de incidência padrão (RIP), calculada pela divisão entre o número observado de casos e o número esperado de casos, foi de 3.93. Quando os indivíduos foram separados pelas indicações de uso, a RIP foi de 6.9 para o grupo de risco aumentado, 1.8 para o de risco neutro e 2 para o de risco reduzido. O carcinoma escamoso foi encontrado em 353 indivíduos, resultando em uma RIP global de 2.77. Já no grupo de 20.177 usuários crônicos de antagonistas de receptor de histamina não foi observado aumento de risco de adenocarcinoma ou de carcinoma epidermóide de esôfago.

Os resultados do estudo apontam para uma forte associação entre a terapia de manutenção com IBPs (por pelo menos 180 dias) e o risco aumentado de adenocarcinoma e carcinoma epidermóide de esôfago. Além disso, o fato dos usuários de antagonistas de receptor de histamina não apresentarem aumento de risco reforça a hipótese de que essa associação foi causada pelo uso do IBP per si e não por outros fatores que predispõem ao uso de anti-ácidos. Apesar desses resultados ainda necessitarem de validação, eles servem de alerta para o uso mais racional e restritivo dessa classe de drogas.

Dr Flavio Sabino – Cirurgia de Câncer de Estômago e Esôfago

Cirurgião de Esofagectomia

Coordenador do Grupo de Câncer de Esôfago do Inca

Cirurgião da Seção de Cirurgia Abdômino-pélvica do Inca
Cirurgião do Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro